quinta-feira, 12 de abril de 2012


 Mulher

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

(Florbela Espanca- Trocando Olhares)



Cinco meia da madrugada. Levantou da cama, foi ao banheiro e lavou o rosto. Contemplou no espelho aquela face rude e cansada que a deixava uns 10 anos mais velha do que relamente era. Escovou os dentes, trocou de roupa e desceu até a cozinha para preparar o café.

Pegou a caneca e encheu-a d'água.

 __ Vá deitar Lorena! Fecha o maldito desse livro! Já falei um trihão de vezes pra desgraçada da tua mãe parar de gastar o meu dinheiro com essas porcarias! 

Colocou uma xícara de açúcar.

__Minha filha, você vai ser o que quiser! Me prometa isso, e então dormirei tranquila.

Acendeu o fogo do fogão com um fósforo e colocou a água doce para ferver.

_ Lorena Lopez! 
Os aplausos explodiram. Como teria gostado se a mãe estivesse presente naquele momento.

Pegou o coador e acrescentou o pó, despejando a água ferevente por cima.

_ Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe"

Colocou o café no copo e arrumou um pão com manteiga para ir comendo pelo caminho. Pegou a bolsa e os livros e foi para porta, a fim de pegar o ônibus para a escola rural da comunidade, onde os alunos a esperavam. Abriu a porta. O cheiro de cachaça adentrou a casa, e então sentiu os braços serem apertados com força e logo em seguida veio o forte empurrão.

_ Vagabunda!

Caiu batendo a cabeça na quina da cadeira, derrubando o café na camisa branca. Levantou meio tonta. Percebeu outra aproximação. Pegou a faca que estava suja de manteiga em cima da mesa. Quando ele chegou ainda mais perto, o odor da pinga entrando em seu cérebro, as mãos dele tentando esganá-la, penetrou-lhe a faca nas entranhas.

Ele caiu, os olhos abertos, a face pálida, sujando de sangue as páginas do livro onde se lia:

- Você jura?

- Juro. Deixe ver os olhos, Capitu.

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada."






terça-feira, 27 de março de 2012



“Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar.”

Encontros e Despedidas – Maria Rita

 (Re) Encontro

Ela desceu do trem, apoiou as malas no chão e olhou em volta. Não sabia de onde vinha, mas a cidade aonde chegava era familiar, muito familiar. E como sentiu saudades desse lugar, como sentia falta das casas pequenas, das ruas estreitas onde podia ser a dona do mundo. Olhou para trás e viu o trem se afastar, levar de volta outras mulheres que não sabiam para onde iam, mulheres que sem querer, sem perceber, se curvariam às vontades alheias, se submeteriam a olhares, a encantos e suas manobras, ainda que despretensiosas.
Mas ela estava de volta, de volta a si mesma, e sabia que nenhuma crítica a tornaria menor do realmente era, porque ela sabia que ninguém no mundo a faria mais feliz do que ela mesma.
Nas malas trouxe as lágrimas e as dores, experiências que não queria esquecer, não poderia esquecer. Mas isso era um assunto para depois. Agora, inundada de uma alegria libertadora, correu para a chuva de braços e boca abertos em uma necessidade doentia de libertar-se, de (re)encontrar-se.

sábado, 24 de março de 2012


“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.” (Cecília Meireles)

A vontade de botar a mochila nas costas e desbravar o mundo sempre existiu, desde criança. Mas não existia sozinha, havia algo mais dentro de mim, algo mais sólido, mais enraizado, alguma semente que eu não sabia ao certo de onde vinha. Eu não conseguia me recordar do momento exato em que fora lançada dentro do meu coração. O fato é que hoje, o que era semente se transformou em erva daninha, ferida dolorida e difícil de ser arrancada.